Interfaces EXTRA Guerra Fria 2.0

TLDR;

  • Google para de dar suporte Android à Huawei por decisão comercial dos Estados Unidos;
  • Quem tem smartphone da marca não precisa se preocupar e não vai perder acesso ao Google e seus serviços;
  • Futuros smartphones deverão rodar sistema operacional próprio ou versão open source do Android;
  • Resposta da China ainda não veio.

A Reuters soltou a bomba ontem à noite: “o Google, da Alphabet Inc. [holding que controla a empresa], suspendeu os negócios com a Huawei que requerem a transferência de hardware e software, exceto aqueles cobertos por licenças open source.” O The Verge confirmou a informação com uma fonte independente e com o próprio Google, que disse estar seguindo as ordens do Departamento de Comércio dos EUA.

Qualcomm, Intel, Infineon, Western Digital, Micron Technologies e Broadcom também estão cortando laços com a Huawei (esse gráfico informa quais são as empresas mais prejudicadas com o banimento, e ações já começaram a cair nos mercados globais). A Huawei, prevendo a situação, fez um estoque de peças por três meses.

Na semana passada, Donald Trump assinou uma ordem executiva proibindo as empresas norte-americanas de comprar equipamentos de telecomunicações de fornecedores estrangeiros, por conta de “risco à segurança nacional”.

É a velha história de “a Huawei espiona as pessoas porque o governo chinês é dono dela” (alegação que ninguém conseguiu provar até o momento, por sinal). Grande desculpa para banir produtos chineses na guerra comercial/tarifária entre EUA e China.

Parte disso também tem a ver com a questão do desenvolvimento de tecnologias 5G pela Huawei e que serão adotadas por diversos países da Europa e Ásia neste ano (indo contra a recomendação dos EUA). Pequeno nó na cabeça: tanto Ericsson como Nokia têm fábricas na China e existe um consenso generalizado que não estão tão avançadas no desenvolvimento do 5G. No Brasil, essa discussão fica só pra 2020, quando teremos leilões de espectro 5G.

Ao Asia Times, representantes da comissão europeia disseram que o banimento dos EUA não terá impacto no desenvolvimento do 5G na Europa. Mas de qualquer modo, a entrega de equipamentos pode vir a sofrer atraso em um futuro próximo. A Telefónica na Espanha já está revisando o banimento por parte dos EUA.

O que isso significa?

O consumidor global corre o risco de pagar a conta. Um analista estima que em 2018 a Huawei vendeu 80 milhões de smartphones fora da China e dos EUA, onde não comercializa telefones (mas vende notebooks).

Na prática, o banimento apenas do Google significa tirar o acesso da Huawei a atualizações do Android e a apps e serviços como Google Play, YouTube e Gmail, deixando os donos de smartphones da marca sem esses serviços/apps/upgrades. E sem serviços de localização ligados ao Maps, notificações do sistema, Google Assistente, Google Fotos e por aí vai.

O Engadget diz que não é bem assim e que o suporte às atualizações do Android e acesso ao Google Play continuam, só que sem interações próximas entre Google e Huawei (o que faz mais sentido).

Um porta-voz do Google disse à Reuters que donos de aparelhos Huawei continuarão a usar os serviços do Google normalmente, porém atualizações de sistema operacional não devem ocorrer. O banimento dos EUA afeta futuros smartphones da Huawei.

Em nota oficial enviada por e-mail, a Huawei diz que:

A Huawei tem feito contribuições substanciais para o desenvolvimento e crescimento do Android em todo o mundo. Como um dos principais parceiros globais do Android, trabalhamos de perto com a plataforma de código aberto para desenvolver um ecossistema que tem beneficiado tanto usuários quanto o setor. A Huawei continuará a fornecer atualizações de segurança e serviços de pós-venda para todos os produtos Huawei, cobrindo todos aqueles que já foram vendidos ou ainda estão em estoque. Continuaremos empenhados em construir um ecossistema de software seguro e sustentável, a fim de fornecer a melhor experiência para todos os nossos usuários globalmente.

O Google, via Twitter, confirma a informação.

Vale lembrar que hoje a Huawei é a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, com 19% de market share e 59,1 milhões de smartphones vendidos no primeiro trimestre de 2019, segundo o IDC). Se um banimento completo ocorrer, esses milhões de usuários estarão sujeitos ao incerto (incluindo questões de segurança ligadas aos updates mensais do Android) e terão menos opção de escolha no mercado.

O mercado chinês de smartphones com Android existe sem serviços do Google, usando o Android Open Source Project, ou AOSP, que é uma espécie de sistema básico de código aberto – um Android “pelado”, digamos. Isso ocorre porque o Google não opera na China e o acesso a todos seus serviços é bloqueado no país pelo Grande Firewall (assim como outras redes sociais, sites de notícias e a Wikipedia). Fabricantes, operadoras e lojas independentes distribuem apps e atualizações.

Nossa análise

No mundo dos desenvolvedores chineses consultados por esta Interfaces, o medo é a Huawei focar apenas no mercado interno e canibalizar as demais marcas (Xiaomi, Oppo, Vivo), com quem convive razoavelmente bem.

Existe ainda um temor de outras marcas serem banidas pelos EUA, dependendo da reação do governo chinês (por exemplo, uma opção nuclear seria a China banir a Apple, aumentar de forma indecente os impostos de produtos da Apple saindo da China ou mesmo proibir a fabricação de produtos norte-americanos na China). Isso pode ser visto também como uma oportunidade de se tornarem independentes do Google e outros sistemas norte-americanos.

A grande questão é política e econômica, não tecnológica. Estamos vendo a Guerra Fria 2.0, onde a ameaça de bombas é substituída por uma ordem executiva que bane empresas de um país de fazer negócios com outro. Uma proibição dessas, a médio prazo, pode implodir o negócio de smartphones da Huawei no mundo. Não acreditamos que isso vá acontecer e a diplomacia deve falar mais alto. Não é pela segurança, é pelo dinheiro.

Nem somos especialistas em economia, mas nenhum teórico deve ter previsto que um país liberal iria banir empresas (e afetar o mundo todo) com a assinatura de uma ordem executiva. Isso remete às sanções impostas a países em conflito armado, ou que cometeram crimes de guerra ou entraram em confronto de alguma maneira, em que as empresas sofrem a punição em razão de seus controladores.

Agora é preciso aguardar a resposta da China e o resultado de novas negociações entre China e EUA.

Tem alternativa?

A Huawei não pode dizer que foi pega de surpresa. Em março, Richard Yu, CEO da divisão de consumo, disse ao jornal alemão Welt que “temos pronto nosso próprio sistema operacional. Caso a gente não possa mais usar esses sistemas, estaremos prontos e temos nosso plano B”. Os sistemas que eles não poderiam mais usar no caso, são o Android e o Windows.

Entretanto, distribuir um novo sistema operacional (e se ele vai vingar) em escala global é uma tarefa hercúlea (imagine fazer a atualização de ao menos 80 milhões de aparelhos, se contarmos apenas a estimativa de 2018).

Mas há um bom exemplo para a Huawei se inspirar: a cada lançamento de novo iOS (da Apple), a taxa de upgrade é bastante alta (83% de todos os iPhones lançados nos últimos 4 anos já rodam o iOS 12, o mais novo). Mas estamos apenas jogando o jogo do otimismo aqui.

A Samsung já testou uma carreira solo sem Android com o Tizen, sistema operacional baseado em Linux (cuja origem remonta aos velhos e bons tempos da Nokia) e que deveria equipar smartphones.

Na prática, o Tizen foi adotado pela Samsung apenas em TVs e smartwatches – onde funciona muito bem (tem até apps da Apple para a TV, olha só).

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Em notas paralelas porém simultâneas, o MyDrivers (da China) encontrado pelo PisaPapeles (do Chile) ventila a ideia de uma possível fábrica de smartphones da Huawei no Brasil. Reza a lenda no mercado há algumas semanas que será na Flex de Sorocaba – mas são apenas rumores ainda sem confirmação.

Antes disso, precisamos descobrir se Jair Bolsonaro vai mesmo comprar a briga de Trump com a Huawei (antes é necessário avisar ao líder da nação que grande parte das redes móveis brasileiras roda em infraestrutura Huawei). O vice-presidente no momento está na China em visita oficial e diz que o Brasil está “aberto a propostas” para investimentos em infraestrutura, mas com foco em portos e ferrovias, sem mencionar telecomunicações.

A semana será interessante com o desdobramento das notícias e a resposta da China. No sábado, continuamos com a repercussão dessa história na nova edição da Interfaces.

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